Introdução
Quando Stephen King lançou IT: A Coisa em 1986, ele não escreveu apenas um livro de terror; ele criou um mito americano. A história de Derry, do Clube dos Otários e de Pennywise é um épico de mais de mil páginas que mergulha fundo nos traumas da infância e na natureza do mal.
Com o sucesso estrondoso dos filmes de Andy Muschietti (IT: Capítulo Um e Capítulo Dois), uma nova geração conheceu o Palhaço Dançarino. Mas, como toda adaptação, sacrifícios foram feitos. Para quem só viu os filmes, o livro esconde segredos obscuros, rituais cósmicos e cenas polêmicas que Hollywood jamais ousaria filmar.
O objetivo deste post é explorar as 10 mudanças mais drásticas entre a obra original e as adaptações. Você vai descobrir por que o final do livro envolve ovos de aranha, como o racismo estrutural foi apagado da trama e o que realmente aconteceu nos esgotos de Derry.
Prepare seu barquinho de papel. Vamos flutuar pelas diferenças que redefiniram o terror.
1. A Reconfiguração Temporal: Dos Anos 50 aos Anos 80
A mudança mais óbvia é o cenário.
- No Livro: A infância dos Otários ocorre no final dos anos 1950 (1957-1958). King captura a era do Rock and Roll nascente, a inocência do pós-guerra e o medo da Guerra Fria. O retorno adulto acontece em 1985, refletindo a desilusão da meia-idade.
- Nos Filmes: A infância foi movida para 1988-1989, surfando na onda de nostalgia dos anos 80 (popularizada por Stranger Things). O reencontro adulto ocorre em 2016.
Por que mudou? Para conectar com o público atual. Mas essa troca altera a textura temática: perdemos as reflexões sobre a América “dourada” dos anos 50 em troca de referências pop oitentistas.
2. A Prole de Pennywise: O Terror Biológico
Se você achou o final do filme assustador, o livro é visceralmente nojento. Durante o clímax de 1985 no romance, Bill e Richie descobrem que a forma física final de IT (uma aranha gigante) é, na verdade, fêmea e está grávida.
- O Ninho: Existem cerca de 200 ovos prestes a eclodir nos esgotos.
- A Missão de Ben: Enquanto os outros perseguem a criatura, Ben Hanscom fica para trás com a tarefa horrível de esmagar cada ovo, garantindo que a linhagem de Pennywise não continue. Essa revelação muda o significado da batalha: não é apenas sobre matar um monstro, é sobre impedir uma infestação cósmica.
3. A Cena Mais Infame (e Impublicável) da Literatura
Existe um momento no livro que gera debates acalorados até hoje e que, compreensivelmente, nunca foi adaptado. Após a primeira batalha nos esgotos, as crianças se perdem e o pânico começa a quebrar o vínculo do grupo. Para reatar essa conexão mística e transicionar da infância para a idade adulta, Beverly inicia um ato sexual com os meninos. King defende a cena como um rito de passagem metafórico, mas ela é amplamente criticada e considerada desnecessária. Os filmes sabiamente cortaram isso, focando na união emocional através de um pacto de sangue.
4. O Parque de Diversões dos Horrores: As Formas de IT
Pennywise é apenas a máscara favorita da Coisa.
- No Livro: IT assume a forma de qualquer medo imaginável: lobisomens (inspirado em filmes clássicos), múmias, o Monstro da Lagoa Negra, pássaros gigantes e até tubarões. É um camaleão psicológico.
- Nos Filmes: Embora vejamos algumas variações (como a mulher do quadro), a adaptação depende muito mais da imagem do palhaço Pennywise. Isso cria uma identidade visual forte para o vilão (Bill Skarsgård brilha aqui), mas simplifica a natureza caótica e mutante da entidade.
5. Beverly Marsh: De Guerreira a Donzela em Perigo
Essa é uma mudança que irritou muitos fãs da personagem.
- No Livro: Beverly é a atiradora do grupo. É ela quem usa o estilingue e dispara os projéteis de prata que ferem a Coisa. Ela é ativa, feroz e nunca precisa ser salva.
- Nos Filmes: No primeiro filme, Beverly é sequestrada por Pennywise após matar seu pai abusivo. Ela fica flutuando em transe nos esgotos até ser “acordada” por um beijo de Ben. Transformar a única menina do grupo em uma donzela em perigo foi um retrocesso narrativo, contradizendo a força que ela demonstrou durante toda a trama.
6. Patrick Hockstetter: O Psicopata Esquecido
No filme, Patrick é apenas um capanga bully que morre rápido no esgoto. No livro, ele é um dos personagens humanos mais perturbadores que King já escreveu. Patrick é um solipsista (acredita que só ele é real) e um sociopata que tortura animais e até matou seu irmão bebê. Sua morte no livro, sendo atacado por sanguessugas voadoras gigantes, é uma das cenas mais gráficas e memoráveis, mas foi completamente diluída na tela.
7. Richie Tozier e a Atualização Cultural
O Richie do livro (“Boca de Lixo”) é um produto de seu tempo. Suas piadas envolvem imitações raciais e estereótipos que eram comuns (embora ofensivos) nos anos 50. King usa isso para ilustrar a cultura da época. Os filmes atualizaram Richie (Finn Wolfhard/Bill Hader) para ser engraçado sem ser ofensivo. Além disso, o Capítulo Dois adicionou uma camada inédita: a sugestão de que Richie é gay e nutria sentimentos por Eddie, dando uma profundidade emocional trágica ao personagem que não existia explicitamente no texto original.
8. O Ritual de Chüd: A Batalha Mental
Como se mata uma entidade cósmica?
- No Livro: A batalha é metafísica. Bill e Richie entram na mente da Coisa (“Macroverso”) através do Ritual de Chüd, uma batalha psíquica de vontades que envolve morder a língua do oponente e contar piadas. É bizarro, lisérgico e difícil de filmar.
- Nos Filmes: O ritual é mencionado como uma piada ou um plano falho. O confronto final se resolve na base da pancadaria física, insultos e arrancando o coração da criatura. Funciona para o cinema, mas perde a grandiosidade cósmica de King.
9. Henry Bowers e o Ciclo de Violência
Henry Bowers é o monstro humano da história. No livro, sua jornada é mais longa e cruel. Após escapar do hospício (ajudado por Pennywise na forma de um amigo morto), ele persegue os Otários adultos, esfaqueia Mike Hanlon gravemente e luta contra Eddie. Ele serve como um lembrete de que o mal de Derry infecta as pessoas. Nos filmes, sua participação adulta é reduzida a um cameo glorificado, sendo despachado rapidamente sem o mesmo peso narrativo.
10. O Apagamento do Trauma Racial de Mike Hanlon
Talvez a mudança mais triste seja o esvaziamento da história de Mike Hanlon.
- No Livro: Mike é o guardião da história de Derry. Seu pai conta sobre o incêndio do Black Spot, um clube noturno para negros queimado por supremacistas brancos (a versão local da KKK). O racismo é um tema central, mostrando que Pennywise se alimenta do ódio humano.
- Nos Filmes: Os pais de Mike morrem em um incêndio doméstico acidental. Toda a camada de racismo histórico e estrutural é removida, transformando Mike em um personagem com menos propósito e conexão com a “alma podre” da cidade.
Conclusão: Qual Versão é a Definitiva?
Não existe uma resposta certa. O livro é uma enciclopédia do medo, densa e sem filtros. Os filmes são uma montanha-russa de emoções, focada na amizade e no susto visual. As mudanças feitas nas adaptações tornaram a história mais acessível, mas sacrificaram a complexidade cósmica e social que faz de IT uma obra-prima literária.
E você? Prefere o terror psicológico e bizarro do livro ou a aventura nostálgica dos filmes? Acha que a cena dos ovos de aranha deveria ter ido para o cinema?
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